CENAS/Céu de giz – uma crônica de Sylvia Cesco

 

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Sylvia Cesco* / Correio do Estado

02/11/2017

Era lá que a criança da manhã rabiscava com seus dedos de Sol os telhados das casinhas, todas iguais. Janelas e portas, sem alpendres ou varandas, debruçavam-se preguiçosas pela rua vestida de paralelepípedos e de cirandas.

ceu 1Sob o luar, a mãe costurava roupas de ir à missa. Um olho azul espiando a agulha e a linha. O outro, a Amarelinha. O ouvido bem aberto às vozes infantis das duas filhas, censurando, quando em vez, possíveis palavrões que se resumiam em “sua boba”, “sua besta”. Era quando levantava ambos os olhos naquele sereno e perfeito cenho, ralhando com firmeza lusitana: – “Olha a boca suja! Vou lavar com sabão!” que, à época, era feito por ela mesma em grandes tachos.

Diante da terrível ameaça dos grandes pedaços de cinzas, banha de porco e soda cáustica, e que emanavam um odor enjoativo, espumando na boca, o linguajar “indecente e pecaminoso” silenciava, ouvindo-se apenas as batidas ritmadas da pedrinha sobre a calçada riscada de giz e o baque surdo dos sapatos duros pulando o 1,2, 3, 4… até chegar ao Céu, escrito com enormes letras.

Esse Céu, por certo, não era o mesmo que o padre, cego de um olho e costumeiramente rancoroso, descrevia para a meninada nas aulas de catecismo: um lugar cheio de anjos, de luz, com Jesus Cristo recebendo todos, desde que tivessem sido batizados, confirmados em Crisma, que não faltassem às funções da Paróquia, se confessassem e comungassem pelo menos uma vez na semana, que não tivessem caído nos pecados de ser mãe solteira ou de viver em concubinato. E claro, na sua pregação, jamais entrariam no Céu do Gozo Celestial os de outras religiões.

céu 3Não, por certo que Céu da Amarelinha era outro, aquele onde a criançada podia pisar, respirar, olhar triunfante para o restante do grupo e de lá voltar quantas vezes quisesse. Era um Céu de Giz, onde morava Dona Liberdade, mesmo que por fugazes instantes, até trocarem a brincadeira… Mas já estavam avisadas: – Balança caixão não pode! Porque no final tinha sempre aquele refrão: “dá um tapa na bunda e vai se esconder”.

 Era nessa hora que as irmãs ficavam de fora, só olhando a algazarra das outras, derretendo-se em vontades de se prender também na cintura da criança à frente da fila, em tacar-lhe um tapa no seu traseiro para depois sair em debandada, buscando esconderijo. Adolesceram ainda com a curiosidade pelas brincadeiras proibidas. Mas aprenderam a rabiscar seu próprio Céu, perdoando o velho padre, compreendendo os cuidados da mãe e, acima de tudo, enterrando para sempre qualquer vontade de balançar caixões e estapear quem lhes estivesse à frente. Ou atrás.

*Professora, poeta, diretora cultural da UBE/MS

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