Crônica de Thereza Hilcar: ‘MEXIDINHO’

tereza2

THEREZA HILCAR* / CORREIO DO ESTADO

12 DE SETEMBRO DE 2017

Em uma festa chique, dia desses, e diante da profusão de comidinhas sofisticadas, a moça descolada disse que seu sonho é ter casa com quintal para fazer uma hortinha. “Quero muito voltar a comer comida de verdade, saudável, plantada e colhida por mim”, disse, animada com a perspectiva eminente. Lembrei-me de imediato da infância no interior e dos costumes que hoje mais parecem história de ficção. A salada verde vinha direto do quintal, onde minha vó também plantava ervas, frutas e legumes. Cenouras, beterrabas, tomates de duas qualidades, pimentão, couve, alface, tudo vivo, fresco, da nossa horta para a mesa. O sabor era outro, bem diferente dos legumes tristes que vemos nos supermercados.

tereza1E no terreno enorme também viviam as galinhas, felizes, ciscando na terra e fazendo aquele barulhinho gostoso que parece música aos meus ouvidos. Comiam o que viam, mais a porção de milho miudinho que a gente pegava com as mãos em concha e jogava para elas. Colher os ovos logo ao amanhecer era uma aventura cercada de sabedoria. Sim, era importante olhar cada canto, ninhos espalhados em lugares inusitados, e ter cuidado em retirar cada um sem desfazer nem espantar as galinhas. Encontrar um ovo azul era a glória total.

A carne que chegava em casa, comprada no açougue da esquina, era tão fresca que se podia ouvir o berro do boi. A carne de porco que ia para a panela – pasmem! – vinha do quintal. Era comum no interior de Minas criar porcos no fundo do terreno. Eram alimentados com sobras de comida – a famosa lavagem. Quem não gostava de ter porcos em casa criava-os em uma pequena chácara apenas com este propósito. Meu avô paterno era um deles. Como nunca fui afeita à carne vermelha, costumava assistir à matança com certa tristeza. Embora também fosse um evento. Quando o matador profissional – quase sempre o mesmo – chegava bem cedinho, com seus instrumentos de tortura, as crianças alvoraçadas se reuniam ao seu redor para assistir àquilo que considerávamos uma aventura. Talvez, por isto, por assistir à barbárie cotidianamente, parei de comer carne vermelha assim que sai de casa, aos dezessete, sob veementes protestos dos avós.

O risoto chique de hoje era para nós o famoso mexidinho, feito com as sobras do almoço: arroz, feijão bem feitinho, legumes e carne picada ou moída, o que tivesse na geladeira. Tudo isto era acrescentado ao refogado de cebolas, alho e ovos fritos. Por cima, uma couve bem fininha, crocante, dava o toque final na iguaria. Mexidinho mineiro é para comer ajoelhado, rezando. Nossa alimentação era totalmente sustentável, para usar o termo que está na moda. Quando o avô exigia jantar – sem sobras –, eu gostava de sair para filar mexidinho em outras cozinhas. Um restaurante de BH ficou famoso por servir o prato nas madrugadas, depois que os jovens voltavam das boates.

Mas o assunto desta crônica não é saudosismo, puro e simples. Até porque existe um movimento forte no sentido de trazer de volta a boa e velha comida de verdade, orgânica, sem aditivos e frescuras. A velha Europa, sábia que é, cultiva há séculos o hábito de comer apenas os alimentos cultivados em locais próximos. Quanto mais perto, mais fresco e mais saudável ele chega às mesas. Por isto é tão importante incentivar e valorizar os produtores locais, os pequenos agricultores. Comida boa não precisa ser chique. Precisa apenas ser boa. Que tal fazer como a moça lá do início e plantar uma hortinha no seu quintal – ou na varanda –, só pra começar? O planeta agradece penhoradamente. E a nossa saúde também.

*****

2 comentários sobre “Crônica de Thereza Hilcar: ‘MEXIDINHO’

  1. Gostei demais da crônica…mais ainda dá menção ao mexidinho…delícia que faço aqui em casa, nas noites em que ataca a fome da madrugada, no meio de uma sessão de filme…E minha mineirice ajuda na confecção de prato tão apetitoso, desde que feito misturando amor aos temperos…Os amigos de meus filhos adoravam!!!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s