A Entrevista (Crônica)

Sem título

OSWALDO BARBOSA DE ALMEIDA* / Correio do Estado

31/08/2017

Ele era um profissional experiente, ainda jovem nos seus trinta e poucos anos de idade, estava desempregado havia muito tempo e se desesperava na busca por um trabalho. Tinha mulher e um filhinho de pouco mais de dois anos de idade. Só não passavam fome porque a esposa conseguira um emprego de recepcionista numa empresa de construção civil, o que dava para a alimentação, as contas de energia elétrica e água e mais nada. Com alguns pequenos trabalhos que ele conseguia aqui e ali, pagava a prestação da casa e mais alguns pequenos gastos.

entrevista 2Tinha formação em administração e já distribuíra currículos em todos os lugares possíveis. Numa bela manhã foi surpreendido por uma carta chegada via correios, convocando-o para uma entrevista de emprego numa grande empresa industrial que havia recém se instalado num dos polos da capital, deixando-o radiante de esperança. A data fixada para seu comparecimento era para dali a dez dias. Confiava em suas qualificações e, no intervalo de tempo que restava para o encontro, ansioso, revisou tudo o que aprendera sobre técnicas de entrevista de emprego, a fim de sair-se bem na conversa com os entrevistadores.

Nesse meio tempo, tomou um ônibus e foi até o local da empresa apenas para conhecer, externamente, sua sede e instalações, e saber qual o tempo necessário ao deslocamento, a fim de não correr o risco de atrasar-se na data e horário aprazados. Estava sem carro, pois, logo no começo do desemprego, teve de vendê-lo por não poder continuar o pagamento das prestações do financiamento.

Chegado o grande dia, preparou-se, vestiu-se adequadamente para o evento, beijou o filhinho e a esposa, e tomou o coletivo com destino ao que sonhava ser seu futuro emprego. Lá se apresentou na recepção, exibindo a correspondência que recebera e foi informado de que seria atendido pela própria presidente, sendo encaminhado para sua antessala. Ali aguardou ansiosamente por uns vinte minutos até ser chamado para a sala onde se daria a entrevista. Foi recebido por uma jovem loura belíssima e elegante, que o saudou com um largo e cativante sorriso.

A entrevistadora sentou-se sobre a mesa de modo insinuante, bem perto dele, exibindo magníficas pernas. Iniciou a conversa totalmente fora do contexto, dizendo que ao vê-lo entrar ficou atraída por ele de modo irresistível, e que o desejava para si de qualquer maneira. Afirmou ainda que o emprego era dele e de mais ninguém. Ao dizer isso, ela escorregou da mesa e acabou no colo dele, que ficou completamente desarvorado, sem conseguir dizer qualquer coisa. Ela agarrou sua cabeça e o beijou apaixonadamente por longos minutos, quase sufocando-o; aos poucos ele correspondeu e ficou muito excitado.

Nesse ponto ele acordou assustadíssimo, transpirando muito. Olhou para a esposa dormindo serenamente ao lado e procurou acalmar-se. Levantou-se, foi ao quarto do bebê em frente e contemplou-o em seu sono tranquilo. Dirigiu-se ao escritório e pegou a carta da empresa, conferindo a data no calendário. Ainda faltavam cinco dias para a entrevista.

*Escritor (coxim.oba@gmail.com)

**Charge do Éder / Correio do Estado

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