Crônica de Sylvia Cesco*: “Vai, Deco!”

Sylvia Cesco* / Correio do Estado

20/07/2017

Sylvia CescoSe o nosso céu tem mais estrelas e nossos bosques têm mais flores, o sol campo-grandense tem mais calor, ora se não! Pelo menos em agosto, mês de poeira e “cachorro louco”, como diziam os mais antigos. (Sim, existem pessoas mais antigas do que eu). Mas foi com muito gosto, em um agosto, em manhã de sábado estorricada, que me dirigi ao Centro Olímpico da Vila Nasser, lugar que eu costumava frequentar nos idos tempos quando ainda trabalhava na área social.

Tudo estava muito diferente lá praquelas bandas e acabei me perdendo no caminho. (Claro, não é preciso admitir que a idade ajudou nessa confusão). Saí em uma estradinha sem asfalto, empoeirada, “o sol na cabeça”, como cantou magistralmente Ellis Regina, e percorri um trecho totalmente desorientada. Senti um alívio quando avistei, de longe, um grupo de pessoas portando faixas e bandeirolas. Havia também um autofalante. Ufa! Cheguei, pensei comigo.

baseball

Mas qual o quê! Aquele monte de gente estava se preparando para jogar ou assistir a uma partida de futebol de várzea. (É assim que se fala? Entendo tanto de futebol quanto de geometria tetraédrica molecular). Meu compromisso era muito importante e não queria me atrasar. Pedi informações e finalmente cheguei ao meu destino, suando em gotas. Por sorte, ainda consegui um lugar na arquibancada de cimento…

No campo, um monte de homens grandes, com ombros enormes e almofadados, capacetes lhes cobrindo todo o rosto, calças justas. Corriam de lá para cá, se trompavam, caíam, se embolavam, levantavam, se empurravam, perseguiam um ao outro e começavam tudo outra vez. Era um bailado de titãs mascarados se movendo para trás e para frente, ora em duplas, ora amontoados, de modo ágil e veloz… Eu não estava entendendo nada… queria pelo menos adivinhar quem, dentre aqueles jogadores, era meu neto, razão da minha ida àquele jogo esquisito. Fui no vai da valsa (ou da dança tribal) e comecei a torcer também junto com a moçada animada, com a qual comecei a puxar papo, quase pedindo desculpas pela minha ignorante presença…

baseball2Conversa vai, conversa vem, disse que estava ali para torcer pelo meu neto, André Phelipe. Alguém perguntou: O Deco? Não soube responder. Não o conhecia por este apelido. Informei que meu neto era aluno de Arquitetura da Uniderp e seu time se chamava Jacarés do Pantanal. Uma das moças veio ao meu socorro: É o Deco, sim. Ele é o número 72. Olhei para o campo e, finalmente, avistei um baita homem oferecendo seus ombros para bloquear a passagem de uma bola estranha, oval, apertada junto ao peito por outro jogador que me pareceu ser o adversário. Endoidei de vez, fiquei lá gritando sozinha: “Vai, Deco! Vai Deco! Pra frente, Jacarés do Pantanal*” (Hoje, o nome do time é Predadores*).

Foi quando outra mocinha, penalizada com minha santa e ingênua ignorância, gentilmente me disse baixinho: “A senhora está na torcida errada. Aqui é a do time Gravediggers.” Saí de fininho e fui para o outro lado, onde finalmente pude me esbaldar, mesmo sem entender nadica de nada do que estava ocorrendo no campo. Aplaudia quando aplaudiam. Gritava quando gritavam. Reclamava quando reclamavam. O jogo acabou depois de quase duas horas.

Os Jacarés do Pantanal não ganharam, mas eu, sim. Ganhei a descoberta de que meu neto não era mais aquele menininho que se lambuzava de coração de galinha quando ia às churrascarias, e que tinha se tornado um homem, um grande homem, escondido embaixo de uma parafernália protetora, marcado com o número 72. E descobri, também, que o sol de Campo Grande faz um bem danado às cabeças e aos corações das avós.

*Professora, poeta e escritora. E-mail: sylviacesco@hotmail.com

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s