As redes sociais numa sociedade doente

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Gerson Luiz Melo Martins* / Jornal “O Estado”

13/07/2017

A convulsão política em que vive o país não se traduz no meio social. A sociedade, adoecida, vive uma apatia sem precedentes. A sociedade digital provoca um adoecimento das pessoas que se reflete, nos ambientes sociais, pela apatia, depressão, impotência, descrédito. Depois de dezenas de denúncias de casos graves de corrupção, dos desmandos do Superior Tribunal Federal que, paradoxalmente, tem dois pesos e duas medidas para julgar casos semelhantes; e ainda uma estrutura estatal de atendimento à saúde, transporte, segurança, educação que se precariza a cada dia, conforme noticiário farto dos problemas estruturais da Polícia Federal (suspensão de passaportes), da Polícia Rodoviária Federal (que suspendeu atividades) e ainda uma forte recessão econômica que somente nas falas dos economistas, devidamente selecionados pela grande mídia e do ministro da Fazenda, além, naturalmente, do próprio presidente Michel Temer está na retomada do crescimento. Falas que enfatizam e agudizam o sentimento de impotência e depressão da sociedade que, no dia a dia das ruas, não percebe essa melhora, ao contrário, percebe centenas de desempregados, estabelecimentos comerciais que fecham as portas e um sistema de saúde e segurança cada vez pior.

Com todo esse quadro por que a população não se manifesta, até mesmo como fizeram os alemães por ocasião do encontro do G20? É notório observar que as manifestações acontecem no âmbito das redes sociais, principalmente no Facebook. Há uma avalanche de repúdios, de denúncias, de “memes”, de ironia, de críticas para os políticos que governam o país. As redes sociais experimentam uma profusão gigantesca de reclamações, denúncias e chacotas em cima dos políticos. O resultado da votação da reforma trabalhista foi mais um caso em que as redes sociais avacalharam, ridicularizaram os políticos. Se os parlamentares – e todos sabem que os assessores o fazem, e muitas vezes nem chega até o conhecimento dos políticos– acessassem as redes sociais sentiriam o desprezo da população. Nos dias atuais, as redes sociais se tornaram um excelente feedback, resposta, repercussão das pessoas para a classe política. Infeliz do político que ignorar essas manifestações!

A limitação das manifestações no âmbito das redes sociais, e quase que exclusivamente –não há mais o bater das panelas, e quando provocada alguma manifestação de rua, poucos participam– revelam o adoecimento da sociedade. Há um sentimento depressivo generalizado. O fato de que os parlamentares ignoram as reivindicações populares, a opinião da sociedade provoca um sentimento de fracasso, impotência que leva as pessoas ao desânimo, como quem diz “político algum presta! Políticos? Só matando!”, entre outras falas cotidianas. As redes sociais se tornaram uma maneira de extravasar o sentimento de raiva, de incapacidade e de desesperança.

Não há manifestações de rua, mas o que acontece, o que se faz nas redes sociais pode equivaler a uma grande revolução. Se todos os memes, reclamações, ofensas publicadas no Facebook, Twitter e WhatsApp fossem transladas para as ruas, haveria uma mobilização gigantesca. A apatia e ausência da população nas ruas não reflete a concordância com as decisões políticas recentes e tampouco a simpatia com os parlamentares. A apatia e ausência da população nas ruas, é importante ressaltar, não reflete o bem-estar da população. Não obstante o governo fale, publique, publicize um país em progresso, mas não em ordem, a população se depara, todos os dias, com o desemprego, com a fome, com a insegurança, com a falta de assistência na saúde pública e os graves problemas de infraestrutura na educação e no transporte público. Não há como “tapar com sol com uma peneira”!

*Jornalista e pesquisador do Ciberjor e PPGCOM – UFMS – *gerson.martins@ufms.br

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