Crônica: A tirania dos segredos

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andrc3a9-luiz-alvez2André Luiz Alvez*

Correio do Estado / 08/06/2017

Ouvi um velho sábio dizer que todos temos segredos. O mesmo velho sábio afirma que nós, humanos, não sabemos guardar segredos. Então fiquei um bocado de tempo analisando se eu tenho segredos guardados num canto da mente, trancado a sete chaves, repletos de senhas indecifráveis. Não vou contar quase nada daquilo que me surgiu à mente, apenas deixo como pista o balançar de cabeça, de um lado para o outro, o riso fácil escapando de meus lábios e a lembrança que muitas vezes me surge em sonhos a imagem trêmula, mas ainda real tão assustadora que parece ter vida: um gavião ‘pinhé’ montado no lombo de um boi, sem ser incomodado, passeando pelo pasto encharcado de lama, em torno dos capins das pontas secas, espalhados ao redor da Sapolândia, em torno do qual nos escondíamos armados de fundas, prontos para acertar à pedradas o gavião.

 – É a sua vez! Gritou o menino mais velho, apontando o dedo para mim. Até sinto o cheiro da borracha esticada, o pedaço de pau em forma da letra ipsilon, envergando até não mais poder e o suor quente que da minha testa caía, inundando os olhos, cegando tudo ao redor e eu, que sempre fui ruim de mira, talvez por conta do anseio e das mãos trêmulas, acabei acertando bem no meio do peito do gavião pinhé, que caiu abatido e restaram os gritos de triunfo dos meus amigos, empolgados por ser aquela a primeira vez que eu fazia alguma coisa certa. O barulho dos nossos pés amassando os gravetos secos estirados pelo caminho se confundindo com os gritos da molecada em correria, ainda consigo ouvir com exatidão, bem como a dor nos pés a cada pisada em falso, nada se comparado à euforia do momento, o prazer inenarrável de ter abatido o gavião.

andré 2Mas quando cheguei perto, vi o sangue escorrer do peito do animal, abraçado aos últimos suspiros, tentando voar, mas as asas não o obedeciam e eu tremi tentando controlar o choro que ameaçou escapar dos meus olhos. O boi tentava reavivar o pássaro com as patas e aquela imagem me perseguiu durante muito tempo, até que alguém decifrou aos meus ouvidos o enigma: diferente daquilo que eu imaginava, uma espécie de amizade entre bichos completamente diferentes, o gavião comia os carrapatos no lombo do boi, causando alívio. O menino mais velho apontou novamente para mim: “deixe de ser marica, senão vou contar na escola que você é um chorão”.

Engoli todo o sentimento e me pus de pé diante dele, a lágrima transformada em ira, já armado pela recordação de pouco antes, quando ele, se divertindo do meu rosto de profundo espanto, revelou que era mentira a história da cegonha, e que para que eu nascesse, terríveis atitudes foram tomadas por meu pai e minha mãe enquanto todos dormiam, certamente numa noite tenebrosa de lua cheia, que se transformou em tempestade sem fim, até que fosse criada “a criatura feia e desengonçada” que eu era. Esse mesmo menino mais velho foi testemunha da minha cara de medo quando as nuvens de chuva se formavam sobre nossas cabeças e o pavor que eu sentia a cada raio, a cada trovão.

Dias atrás reencontrei esse personagem dos meus tempos de infância, agora um senhor grisalho, pouco mais velho que eu, aparentando bem mais; estava tudo ali, naquele olhar murcho, perdido num começo de catarata, mas que manteve a altivez ao me reconhecer e eu novamente esmoreci, já sabendo que dentro daquela mente desfilava meu tenebroso segredo de infância: ele sabe que eu matei um gavião pinhé. E quando recebi o aceno sorrindo, devolvi o resto de mágoa que guardei, um gesto frio e indiferente, sentimento que me vi liberto assim que meus passos seguiram adiante e ele ficou para trás, como se fosse aquele boi, sentindo a falta do gavião pinhé a lhe bicar os cantos do lombo.

* Escritor e ator de teatro Acido13@gmail.com

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