Discutindo a utopia de cidades compactas e sem separação de classes

Ângelo Arruda

Ângelo Marcos Arruda* / Jornal “O Estado”

04/04/2017

Lendo artigo no jornal “Valor Econômico”, de 23 de março de 2016, de autoria de Philip Yang e Danilo Igliori – Cidades: densidade e diversidade –, pude perceber algo novo no Reino da Dinamarca na questão urbana: cidades dispersas e ricos e pobres morando distantes uns dos outros são temas que estão na ordem do dia. No começo pensei: teremos de mudar uns 5.000 anos de história das cidades. Será que este assunto desperta debates? Lá pelo meio do artigo, os articulistas afirmam: “aumentar a densidade urbana contribui não apenas para reduzir custos do transporte e impactos ambientais, mas pode amplificar as oportunidades para economias de aglomeração. O aumento da densidade frequentemente está associado ao aumento da diversidade”.

angelo 2

E ainda confirmam que o compartilhamento da área urbana entre pessoas de diferentes níveis sociais – ricos e pobres–, significa não apenas o ideal utópico de uma democracia espacial e territorial, mas também um motor de eficiência econômica. Territórios plurais são mais eficientes do ponto de vista produtivo e são uma pauta que pode aproximar as correntes da esquerda com a direita e as agendas urbanas de pessoas, sociedades, entidades, empresas e governos, por uma nova agenda social urbana.

A história das civilizações vem nos mostrando sempre o contrário. Desde os tempos mais longínquos, a sociedade humana vem ocupando seu território de maneira dispersa e com enorme separação dos locais onde habitam os mais ricos e poderosos politicamente e os mais pobres. Especialmente no período do Império Egípcio, atravessando a Idade Média, o Renascimento, a Revolução Industrial e o mundo moderno e contemporâneo, não temos uma sociedade compacta em termos urbanísticos e sem separação de classes no habitat. Basta olhar para os lados, qualquer lado que seja da Terra, e veremos como moram os mais ricos e onde, e como moram os mais pobres e onde. Sempre separados, às vezes por muros ou por recursos naturais.

Angelo -cidades compactas

Então, com tantos séculos de convivência, por que agora essa tese começa a vingar, ao menos em documentos acadêmicos de discussão? O que de fato é novo, o que de fato é renovação, o que de fato é invenção?

Em primeiro lugar vamos colocar no eixo da discussão as palavras mágicas deste texto: densidade e diversidade. Estas são, para mim, as duas palavras essenciais na discussão da cidade real x cidade ideal, sem utopia, nos dias de hoje. Não basta apenas falar em sustentabilidade sem dizer o que se tem e o que se quer, mas o que se tem é pouco e ruim e o futuro precisa resolver o hoje, em primeiro lugar.

A densidade urbana é a chave de todos os problemas de uma cidade. Se ela é equilibrada, a cidade flui, seus serviços são mais baratos para todos e mais próximos. Se a densidade é pouca, rala e o sítio urbano esparso há problemas de toda ordem. Mobilidade ruim e cara, serviços essenciais inexistem para todos, pois custa muito caro dispor de uma universalidade.

Agora, se a densidade é acompanhada de uma compacidade em que todos os lotes estão ocupados e os serviços essenciais estão por perto da moradia e há condições de sair de casa e caminhar para usar a cidade, eu diria que essa é uma cidade ideal, com custos muito baixos. O que custa uma cidade compacta? Combater os vazios urbanos, promover incentivos para localização de serviços essenciais e uma política de mobilidade que retire o automóvel das ruas. Uma cidade compacta, com uns 250 a 300 habitantes por hectare, é perfeita em todo lugar do mundo.

No entanto, o contrário, as cidades dispersas com imensos vazios – caso de Campo Grande, MS – são mais caras, mais distantes, mais desiguais e geram enormes despesas para todos por conta do perímetro a ser mantido.

Ricos podem morar ao lado de pobres e se beneficiarem dessa condição. Em Campo Grande já temos exemplos dessa convivência lado a lado, que beneficia a todos, que gera uma matriz econômica mais pulsante e dinâmica e cuja cidade lucra enormemente com um barateamento de seus custos essenciais. O exemplo mais visível disso é a dinâmica do bairro Tiradentes, com os vizinhos ricos dos residenciais Dahma ali por perto. Ou a rua Bom Pastor, com o passa-passa dos vizinhos novos do Rita Vieira. Só não vê quem não quer. Viva a cidade compacta, onde pobres e ricos tenham harmonia urbanística.

*Ângelo Marcos Arruda – Arquiteto e urbanista, professor da UFMS.

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