O presidente Michel Temer é machista?

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O presidente Michel Temer e a primeira-dama, Marcela Temer

Mateus Bonomi/Agif/Folhapress

09/03/2017

Raquel Landim / Folha de São Paulo

Se os bajuladores do Planalto ousassem perguntar a Michel Temer se ele é machista, tenho convicção de que ouviriam um sonoro não.

Arrisco dizer até que o presidente deve estar aborrecido com a interpretação “equivocada” feita por “algumas feministas” de suas declarações no Dia Internacional da Mulher.

Um leitura mais atenta de suas palavras na cerimônia realizada nesta quarta-feira (8) no Planalto mostra, no entanto, que o problema é mais grave. Ele parece confundir a realidade da mulher com qual deveria ser o seu papel na sociedade brasileira.

Em seu discurso, Temer fez três “elogios” ao que considera ser o “papel” da mulher: dar uma formação adequada aos filhos, cuidar dos afazeres domésticos e zelar pelo orçamento da família.

“Se a sociedade vai bem, quando os filhos crescem, é porque tiveram uma adequada educação e formação. E seguramente isso quem faz não é o homem, quem faz é a mulher”, disse.

Infelizmente, Temer não está errado, embora isso não seja motivo de comemoração, mas de preocupação. Pesquisa do Ipea em parceira com a ONU mostra que o número de lares “chefiados” por mulheres no Brasil subiu de 23% em 1995 para 40% em 2015.

É verdade que estão surgindo arranjos familiares diferentes dos tradicionais, mas boa parte desse crescimento é resultado da urbanização, que facilitou que o homem abandonasse a mulher cuidando sozinha dos filhos nas áreas pobres das cidades.

Temer também ressaltou que “a mulher, além de cuidar dos afazeres domésticos, vai vendo um campo cada vez mais largo para o emprego”. De novo, ele se equivoca na análise, mas não no conteúdo, já que os afazeres domésticos não são uma obrigação só das mulheres, mas recaem majoritariamente sobre elas.

Quase metade dos homens brasileiros admite que não faz nenhum trabalho doméstico, enquanto mais de 90% das mulheres dedicam uma parte do seu dia a cuidar da casa e dos filhos, informa o Ipea.

Por conta dessa dupla jornada, as mulheres trabalham em média 53,6 horas semanais, muito acima das 44 horas previstas em lei. A jornada dos homens está em 46,1 horas. Nos últimos 15 anos, a carga de trabalho da mulher diminuiu cinco horas, mas a do homem também caiu três horas.

Isso não significa, portanto, que os companheiros estejam dividindo melhor as tarefas. Elas só estão menos sobrecarregadas graças a ajuda dos eletrodomésticos: o porcentual de domicílios com máquina de lavar roupa subiu de pouco mais de 20% em 1995 para 60% em 2015.

Finalmente, Temer também parece ignorar as dificuldades que as mulheres enfrentam no mercado de trabalho. O presidente disse que o número de mulheres que comandam empresas é “imenso” e que “as mulheres no Legislativo estão tendo uma atuação extraordinária”.

Segundo o IBGE, as mulheres representam 44% dos trabalhadores brasileiros, mas ocupam 37% dos cargos de gerência e direção e apenas 10% do topo dos comitês executivos. Na Câmara dos Deputados, as mulheres podem até ser bastante ativas, mas representam cerca de 10% dos parlamentares.

Em um país ainda tão carente de políticas de valorização feminina, é muito preocupante que um presidente tenha uma visão totalmente distorcida da situação das mulheres.

Embora as posições de Temer — que só indicou duas mulheres para seu alto escalão após muitas críticas públicas— não cheguem a ser uma surpresa. Ele pode até negar, mas é muito machista.

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