A memória de Mato Grosso do Sul

higa-saul-schrammPor falta de apoio do poder público, MS pode perder sua história

24/02/2017

Victor Barone / Jornal ‘O Estado MS’

Um povo sem memória é um povo sem história, disse certa vez a historiadora Emilia Viotti da Costa. Ela estava repleta de razão. Sem história, um povo está fadado a repetir os mesmos erros do passado. É por isso que preservar a memória de um povo é tão importante e, muitas vezes, tão difícil. O que parece óbvio para muitos não é tão claro para alguns. Que o diga o fotógrafo Roberto Higa, que há 50 anos registra os mais importantes momentos históricos de Mato Grosso e –após 1977– de Mato Grosso do Sul.

higa1Com um acervo de mais de 400 mil imagens – entre fotogramas, negativos e cromos–, Higa mantém a memória do Estado em sua casa, no bairro Santa Fé, com a ajuda da filha, Akemi, e da mulher, Sandra. Desde 2010 a família tenta preservar o arquivo em um árduo trabalho de digitalização que, por incrível que pareça, não conta com nenhum tipo de apoio público. Lidando com o esquecimento oriundo do Alzheimer, Higa, no entanto, não se esquece da importância de manter viva a memória pública dos sul-mato-grossenses.

Em um cômodo da residência, onde um ar-condicionado funciona ininterruptamente para manter as imagens em uma temperatura ideal, o fotógrafo exibe, com orgulho, o resultado de décadas de registros. Mas há também uma tristeza, uma preocupação pelo descaso com o qual o poder público trata a história do Estado.

Há anos Higa tenta, sem sucesso, uma parceria com o governo do Estado e com a Prefeitura de Campo Grande, no intuito de transformar seu acervo em um museu, com condições de manter em segurança todo o material e, também, viabilizar o trabalho de digitalização dessas imagens. Muitas estão se perdendo em decorrência das condições inadequadas de armazenagem, por acidentes (como uma chuva forte que atingiu documentos históricos) ou por simples falta de tempo, já que Higa, hoje com 65 anos, continua trabalhando ininterruptamente.

higa2Registros como os da velha Campo Grande pré-divisão do Estado; do passeio da 14 de Julho, no fim dos anos de 1960, onde muitos casais se formaram; das comemorações pela Copa de 70; de todo o processo histórico que deu origem a MS; da cidade de lona em Porto Murtinho; da primeira escada rolante da Capital; da inauguração do primeiro lava-jato; das obras de espaços emblemáticos da cidade, como o Morenão, o parque dos Poderes e o parque das Nações Indígenas; da queda da marquise do Morenão, após o jogo Iugoslávia e Bolívia, em 1972; a foto do desenho da primeira bandeira sul-mato-grossense; da vida política do Estado e da Capital; momentos importantes de personalidades como o poeta Manoel de Barros e o ativista Marçal de Souza são apenas alguns poucos exemplos do universo que Higa preserva por pura abnegação e do que está ameaçado de desaparecer por simples descaso das autoridades.

Hoje, o acervo de Higa é fonte constante de pesquisas, tanto por parte de jornalistas como de estudantes, aos quais ele atende dentro das possibilidades. “No mínimo três estudantes por semana. Se tivéssemos um museu, este material poderia ser disponibilizado pela internet”, explica.

Ele também atende a quem detém o poder, embora não esconda sua mágoa. “Eles [os políticos] vêm aqui, enchem a nossa cabeça de ilusão, viram as costas e vão embora, sem dar nenhum retorno. Mas, quando precisam de imagens da nossa história, me procuram, isso quando não usam sem autorização”, desabafa.

Cercado em sua sala pela iconografia de Mato Grosso do Sul, ele fala apaixonadamente de sua vida profissional, mas deixa transparecer também uma certa perplexidade pelo desinteresse do governo e da prefeitura.

“Fotografei todos os momentos importantes que marcaram o Estado nos últimos 50 anos, tenho momentos maravilhosos do Manoel de Barros, do Marçal”. “Estamos perdendo esses registros por conta do tempo e da falta de condições ideais para armazená-los”, lamenta.

*A foto supimpa é de Saul Schramm.

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