Crônica: O fio de cabelo no lóbulo da orelha

andrc3a9-luiz-alvez-2André Luiz Alvez* / Correio do Estado

9/1/2017

Estava com o rosto diante do espelho, contando as rugas, quando percebi algo quase invisível se movendo. Encostei o rosto até bem perto do espelho e me dei conta que havia um longo fio de cabelo no lóbulo da minha orelha direita.

sem-tituloPuxei o danado, gritei de dor. Com o rosto abrasado, fiquei me perguntando por quanto tempo ele estava ali, sem que eu percebesse. Por segundos insanos, pensei em fazer com aquele fio de cabelo o mesmo que fazia com o cigarro nos tempos de fumante: puxar papo, conversar diversos assuntos.

Puxei novamente, a dor recuou porque já não existia a surpresa e no instante seguinte me preparei para dar fim ao incômodo, apanhei a tesoura e estiquei o fio até o fim, mas eis que, reparando de perto, notei que o danado tinha um tom dourado.

Será que alguém vai acreditar que quando criança eu era loiro dos cabelos cacheados? Talvez fosse o último remanescente dos meus tempos de cabelos cacheados e que tenha sobrevivido há mais de meio século. Senti um inesperado apego por aquele fio de cabelo e até pensei em guardá-lo numa caixa de vidro.

Minha nossa, que louco é esse que guarda o fio de cabelo numa caixa de vidro? Depois fiquei em dúvida se devia contar isso numa crônica. Eis me aqui, decidido. Devo declarar que desde muito moço sofro com a falta de cabelos. Tenho cultivado ultimamente uma barba ralinha para disfarçar, que cuido com esmero, por vaidade e porque se tornou um motivo para eu ir a uma barbearia, costume que havia abandonado desde os anos noventa, quando os cabelos se foram e me tornei ligeiramente calvo. Foi um tempo ruim, de repente, tudo despencou.

No começo, tentei disfarçar usando boné, mas não me acostumei, porque me pesava a cabeça e escondia os olhos. Nunca entendi o sujeito que tem cabelos e usa boné. Resolvi deixar para o outro dia o que fazer com o fio dourado.

Quando acordei, corri para frente do espelho e procurei em vão o meu precioso fio dourado, mas notei apreensivo que só existia a maciez de sempre no lóbulo da minha orelha. Será que durante o sonho puxei sem querer a ponta da orelha e o fio se soltou? O que foi que sonhei, afinal? Não me lembro de nada. Mas recordei com riqueza de detalhes uma árvore imensa que existe bem à frente do Colégio Dom Bosco, tão velha que deve ter visto de tudo, seus galhos secos insistem em abraçar em tons cinza a cidade que engoliu o vilarejo, e lá no alto, bem no canto direito, num verde tão belo que emudece, despenca um fino galho de folhas verdes.

E me apeguei àquele galho verde para nunca mais, porque ele desperta a vitalidade que ainda pulsa na árvore antiga, talvez tal e qual o fio dourado, agora desaparecido na minha orelha.

Então pensei no amigo Marcos Estevão, que além de médico é poeta, psiquiatra dos bons, quem sabe numa boa conversa ele me indique algum remédio, ou apenas um bom gole de uísque, para pôr fim à falta que me faz aquele cabelo dourado, que sumiu sem se despedir, deixando esse inexplicável sentimento de vazio no lóbulo da minha orelha direita.

* Escritor e ator de teatro (acido13@gmail.com)

**Ilustração: Éder

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