Gerson Luiz Mello Martins: A irresponsabilidade de difusão da notícia

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02/02/2017

gerson-de-melo-martinsGerson Luiz Mello Martins* / Jornal O Estado

A difusão de notícias falsas tem alarmado as pessoas, as instituições e, principalmente, a mídia que se vê no centro dessa questão, pois as notícias falsas, muitas vezes, são disseminadas a partir de manipulação de páginas de jornais ou de cibermeios jornalísticos. O problema se tornou grave com a divulgação de notícias falsas sobre a campanha política para presidente dos Estados Unidos. O fato se tornou viral, se disseminou de forma intensa a ponto da principal cadeia de televisão no Brasil dedicar um espaço significativo no programa jornalístico de maior audiência exibido aos domingos, no programa “Fantástico”, da Rede Globo.

rede-globo-3A matéria do programa “Fantástico” foi contundente até mesmo para a própria emissora que veicula notícias sem critérios éticos, em que privilegia determinados assuntos em detrimento de outros tão importantes quanto. E, em muitas vezes, dá destaque exaustivo a determinado fato, durante vários dias e com longos minutos de duração e outros simplesmente finge que não existe. É notório o “esquecimento” da Rede Globo para as manifestações populares realizadas em todo o Brasil contra o Governo Temer e na denúncia do golpe de estado civil no país. Enquanto, no período de crise política do governo Dilma deu ampla e total cobertura para as manifestações de rua, o mesmo não ocorreu sobre as manifestações de rua contrárias ao governo atual.

globo2Da mesma forma que as notícias falsas provocam prejuízos à sociedade, ao próprio jornalismo, as notícias manipuladas têm o mesmo problema. A manipulação editorial, sem qualquer critério ético, também é prejudicial à sociedade, também é uma irresponsabilidade e um crime.

Pela última pesquisa de audiência da mídia no Brasil, a televisão é ainda majoritária na preferência dos brasileiros para acessar as notícias, as informações. A internet, notadamente os cibermeios jornalísticos, cresceu significativamente, pulou de 15 para 23%, mas a televisão é a que detém a maior fatia, o maior público. E, pior ainda, do ponto de vista da ética jornalística, a população brasileira fica restrita à televisão para saber das notícias. Se a televisão, embora majoritária nessa opção, tivesse os cibermeios ou outras mídias como complemento da informação, a situação não estaria tão ruim.

O jornalismo produzido atualmente pela Rede Globo enfatiza a análise de Schudson (1989), citado por Neveu (2006), sobre a manipulação editorial das notícias que se assemelham aos boatos e às notícias falsas tão propagadas nos últimos meses. Diz Schudson que “as informações não só contam a política, mas também participam de uma política da forma narrativa”. Ainda Neveu (2006), a citar Yves de La Haye (1978), diz que este autor “tenta mostrar em que medida os discursos da imprensa veiculam, por suas formas narrativas, uma visão de mundo obediente à ordem estabelecida”.

Assim, é contraditório a Rede Globo produzir uma reportagem sobre o grande problema que se tornou a propagação das notícias falsas se o jornalismo da emissora manipula editorialmente as notícias que induz a população ao conhecimento falso dos fatos. Então é a mesma coisa, propagar notícias falsas e manipular editorialmente as informações provoca, na audiência, a mesma ilusão do conhecimento dos fatos. Se a população fica exclusivamente nos noticiários da Rede Globo para conhecer os fatos, também terá um conhecimento falsificado e os malefícios serão os mesmos das notícias falsas divulgadas nas redes sociais.

O jornalismo é um fator muito sério para ficar em um único jornal, em uma única emissora.

*Jornalista e pesquisador do PPGCOM e Ciberjor UFMS – gerson.martins@ufms.br

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