Desigualdade: petição pede mudanças na política econômica do governo brasileiro

desigualdade“A situação de quem está na base econômica está piorando muito”, disse diretora da Oxfam

“Oito bilionários têm riqueza maior que a soma de 3,6 bilhões de pessoas mais pobres”

18/01/2017

Felipe Gelani*/ Jornal do Brasil”

Há que se pressionar os bilionários para que paguem impostos devidos”, disse ao ‘JB’ diretora da Oxfam

A Oxfam, ONG que atua pelo fim da pobreza e da desigualdade, divulgou em seu site na terça-feira (17) uma petição apelando ao governo brasileiro que promova políticas econômicas em prol da diminuição do abismo socioeconômico que vem aumentando não só no Brasil, mas no mundo inteiro.

Segundo relatório divulgado pela própria ONG na segunda-feira (16), oito bilionários possuem uma riqueza maior que a soma do que possuem 3,6 bilhões das pessoas mais pobres do planeta, o que corresponde a cerca de metade da população mundial.

Na petição, a organização pede que o governo intensifique a fiscalização contra a sonegação de impostos e contra o uso de paraísos fiscais e que promova uma reforma que torne o sistema fiscal mais justo. Eles também pedem que o orçamento necessário para saúde e educação públicas e de qualidade para toda a população seja garantido e que o governo promova políticas para acabar com a diferença de salários entre homens e mulheres.

Para a diretora-executiva da Oxfam no Brasil, Kátia Maia, a desigualdade contribui para aumento da insatisfação e do conservadorismo no mundo. Isso se reflete em acontecimentos como o Brecht, a eleição de Donald Trompa e o resultado das eleições no Brasil em 2016. “Cada vez mais as pessoas estão sentindo essa concentração da riqueza. A distribuição do bolo é menor do que o crescimento do próprio bolo”, afirma Kátia.

Na opinião da diretora da ONG, a competição acirrada por vagas de trabalho em um ambiente de redução das ofertas de emprego dialoga com o aumento de movimentos conservadores. Ela também usou o exemplo dos EUA para representar a falta de aproximação que a política tem em relação à sociedade em consequência da desigualdade. “Os membros do gabinete do Trump, por exemplo, são bilionários, dificilmente vão olhar para as camadas mais pobres.”

O coordenador do curso de Administração da Universidade Veiga de Almeida, Alessandro Orofino, afirma que o aumento da desigualdade é uma consequência natural do sistema econômico vigente. “Desde que o sistema capitalista começou, sempre houve uma concentração de renda cada vez maior. A gênese do capitalismo é essa. Essas pesquisas mostram que esse modelo continua muito perverso”, explicou Orofino.

Na visão dele, o aumento da violência, miséria e insegurança são reflexos da exaustão do atual modelo econômico. “Temos 1% de pessoas no mundo com muito dinheiro e 99% sem. Um abismo cada vez maior que provoca diminuição de cargos nas empresas. Ao mesmo tempo, um aumento gradual dos impostos, empresas cobrando dos políticos mais facilidades, por meio de lobismo. Em consequência de tudo isso, a falta de renda gera turbulência social, que por sua vez privilegia o surgimento de ‘salvadores da pátria’. Isso é muito perigoso.”

Kátia Maia acentua a importância do papel das grandes empresas no movimento crescente da desigualdade. Para ela, a atitude dessas organizações provoca achatamento salarial. “Encontramos o exemplo de uma corporação indiana na qual pudemos observar que o salário da diretoria é cerca de 400% maior do que o salário médio pago pela empresa”, ressaltou.

A transformação da vida em uma competição para conseguir se posicionar satisfatoriamente em um mercado cada vez mais acirrado também provoca consequências negativas no dia-a-dia das pessoas. É o que afirma Orofino. “A desigualdade gera tanto tensão social como tensão psíquica. É uma sociedade que privilegia o consumismo, as pessoas se tornam um produto nas redes sociais. Elas criam uma ilusão de si mesmas.”

Pelo menos em curto prazo, para reduzir o problema da desigualdade Kátia Maia defende que reformas tributária e fiscal são prioritárias. “No ano de 2015 a sonegação fiscal brasileira foi de R$ 500 bilhões. Enquanto isso o governo quer reformar a Previdência Social e realizar outras medidas de austeridade.”

O que mais preocupa a diretora é o foco dos projetos do governo brasileiro. “Em um momento de crise, os gastos com saúde e educação, básicos para a sociedade, são deixados de lado. Se não houver uma política que vise esses problemas, há tendência de aumento das tensões, de insegurança, de crises de instabilidade. A situação de quem está na base econômica está piorando muito.”

Orofino apresenta também a possibilidade de leis para a taxação de grandes fortunas. Mas para ele, a base do problema é mais profunda do que parece. “Precisamos de uma melhoria de todos os níveis da educação, para que as pessoas tenham uma visão de mundo menos materialista. A saída é uma educação menos voltada a valores materiais e políticas sérias de gestão e de combate contra a corrupção.”

Mas Kátia só acredita nessa possibilidade com uma participação ativa da sociedade. “Temos que pressionar o governo. O problema não é o rico, e sim os privilégios de um grupo econômico que define os caminhos da nossa política. Precisamos beneficiar as empresas que possuem políticas sociais. Há que se pressionar também os bilionários para que eles paguem os impostos devidos e que realizem políticas salariais mais justas”, concluiu.

** do projeto de estágio do JB

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