Ser negro no Brasil: “Raça é sempre o outro (Le Monde Diplomatique)

 

negros
Ilustração de Flávia Bomfim

Esse jogo hegemônico de opostos ainda pode parecer evidente num contexto de memória escravagista. Nunca se falou,  por exemplo, num “continente amarelo” (como se fala desde sempre num “continente negro”): a persistência classificatória do “negro” é um álibi para a coincidência histórica entre a África e o tráfico escravagista

por: Muniz Sodré / Le Monde Diplomatique

 Janeiro 2017

MAS QUE PAÍS OBTUSO QUANDO IRÁ SE ASSUMIR MAMELUCO-CAFUZO?

Em meados dos anos 1990, o conhecido sociólogo peruano Anibal Quijano sustentava que “a mais pungente questão que circula entre os intelectuais latino-americanos é a da identidade”. Não era, entretanto, uma questão que parecida interessar à intelectualidade brasileira da época, em geral convicta de eu essa temática já tivesse sido por demais abordada no passado por congêneres como Gilberto Freyre, Alberto Torres, Jorge amado e outros. Tendia-se inclusive a pensar que as relações de classe social – supostamente mais adequadas a uma sociedade moderna em via de “neoliberalizar-se”, além de fartamente teorizadas por liberais e marxistas – esgotariam o núcleo problemático da questão identitária, a dita “relação racial”.

O problema é que, uma década depois, a realidade parecia desmentir esse wishful thinking intelectual: a agenda identitária tornou-se mais relevante em ermos públicos do que a classista, em virtude de avanços significativos por parte de segmentos sociais reprimidos.

Mas houve quem na mesma época do diagnóstico de Quijano percebesse a emergência de uma nova “voz das ruas”. Assim é que o veterano jornalista Fernando Pedreira (logo depois nomeado por FHC para o posto de embaixador do Brasil na Unesco) pressentia com temor: “Aos poucos,  Brasil se vai tornando mais uma grande republica do Caribe; outro México, uma inchada e paciente Jamaica ou Guatemala de dimensões continentais. Vem do Norte uma crescente e irresistível onde que vai lambendo o país, tomando de assalto sua cultura, sua política […] Estaria nascendo, enfim, um novo Brasil mais brasileiro, vale dizer, mais latino-americano, cucaracho, caliente, orgulhosa e assumidamente negroide, cubano […] A mineiridade, o humor quase britânico (civilizadíssimo) de Drummond e Machado já eram […] Dois Brasis: um país, digamos Cone Sul, mais próximo do Chile, da Argentina ou do Uruguai, e outro caribenho, de cuja existência não nos dávamos claramente conta até ontem, mas que cresce como maré montante”. (Jornal do Brasil, 2 de maio 1993).

Nessa pérola de preconceito e paranoia está embutida a discriminação ao “outro” do Brasil neoliberalmente desejado, ou seja , os “latrino-americanos”, o nortista e o negro. Estes últimos começariam a ressoar com alguma força no final do segundo mandato de FHC e muito mais alto no governo de Lula, redundando na implantação de políticas públicas de afirmação racial e nas cotas universitárias. É conhecida a enormidade da reação, no âmbito da mídia, dos desvãos burocráticos de universidades e do senso comum.

Foi como mexer num vespeiro, previa-se uma “guerra racial” em curto prazo.

  • Ver artigo completo na revista “Le Monde Diplomatique” de Janeiro 2017. A ilustração acima pertence a outro artigo imperdível de Fábio Nogueira publicado na mesma revista e intitulado “Governo Temer como restauração colonialista” que deverá ser lido integralmente!
  • Hermano J. H. de Melo (Jornalista – Blog “Liberdade,Liberdade2”).

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