Trump, Brexit e o muro que esconde a crise do modelo econômico capitalista

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Vista de campo de refugiados Za’atri na Jordânia que vem abrigando centenas de milhares de sírios fugindo da guerra

Cientistas políticos analisam os fenômenos que surpreenderam o mundo, mas que traduzem o nosso tempo

12/11/2016

Rebeca Letieri* / Jornal do Brasil

A vitória de Trump nos Estados Unidos, assim como a do Brexit no Reino Unido, a reprovação do acordo de paz na Colômbia ou o apoio popular aos discursos de ódio e preconceito propagados por políticos legitimados por voto no Brasil e no mundo mostram, segundo especialistas, o triunfo de uma direita conservadora, que perdeu a agenda neoliberal para os partidos chamados “mais à esquerda”, e que usam o sentimento anti-imigrantes para esconder uma crise no modelo econômico capitalista.

Junho de 2016, em Londres, o referendo popular (plebiscito) do Brexit – abreviação de Britain Exit, uma expressão inglesa que significa “Saída Britânica”, na tradução literal para o português – determinou a saída do Reino Unido da União Europeia. A certeza de que prevaleceria por vontade popular o não divórcio com a Europa havia sido surpreendentemente contrariada. Uma maioria silenciosa – que passou longe do radar das pesquisas de opinião – votou pela saída do bloco.

Levados por uma campanha calcada na aversão aos imigrantes, o país cedeu ao nacionalismo tradicional, pautado por uma política externa cada vez mais interna e menos globalizada.

“A crise da Grã-Bretanha com a União Europeia foi explorada nessa relação. Já havia uma campanha contra os imigrantes, que foi usada pelos conservadores para fazer os eleitores assustados votarem a favor da saída Brexit”, disse o professor de ciência política da Unicamp, Reginaldo de Moraes, acrescentando: “Tem uma crise do modelo capitalista na Europa e nos EUA, e um sucessivo terremoto econômico com a destruição do emprego e a criação de precariedade. Essa política econômica não é posta em discussão porque se usa como bode expiatório o imigrante, que é chamado de ladrão, estuprador, viciado, etc. Você desvia a explicação do seu problema principal para achar um bode expiatório, que é fácil de alvejar, que é visualizado facilmente, até pela cor, cultura e religião”, completou.

Os discursos de ódio ganharam espaço, e vêm sendo respaldados pela legitimação de figuras políticas em potências mundiais. A eleição de Donald Trump como presidente dos EUA é o mais recente caso, que também contrariou o resultado das pesquisas de opinião. A maioria silenciosa foi para as urnas e elegeu o magnata republicano. O verdadeiro estrago deste homem, nomeado pelo próprio jornal norte-americano New York Times como “o pior candidato de um grande partido na história moderna americana”, já tinha sido feito, dando passagem para o cidadão comum destilar o seu preconceito contra latinos, negros, LGBTs e imigrantes.

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O empresário Donald Trump será o 45º presidente dos EUA

“A gente está acostumado a pensar numa direita elitista, mas esquece de que a direita fascista tem um apelo popular forte. O que ocorreu na década de 30, na Europa, foi uma democracia liberal insensível ao problema de desigualdade, e o fascismo se mostra como uma solução para isso”, analisou o professor de ciência política do IESP/UERJ, João Feres.

Trump encontra um paralelo no Brasil no deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ), conhecido em todo o país pelas declarações polêmicas em torno de temas como a homossexualidade, o racismo e as ditaduras no Brasil e em países latino-americanos. Inclusive, após a vitória do magnata nos EUA, Bolsonaro comemorou nas redes sociais, afirmando que “em 2018 será o Brasil no mesmo caminho”.

Menos distante é o caso dos colombianos que rechaçaram um plano de paz para pôr fim a uma guerra civil com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) que já dura mais de 50 anos. Como explicar que um povo escolheu continuar fazendo guerra? Assim como lá e aqui, os Estados Unidos construíram campanhas grotescas em cima de uma inversão de valores politicamente corretos, e que ganhou respaldo de uma maioria nas urnas.

Para Feres, a direita norte-americana perdeu a agenda neoliberal para o partido democrata. Hillary Clinton era a candidata do mercado financeiro.

“O que sobrou foi o populismo fascista. Os EUA e a Europa são lugares onde a desigualdade cresceu brutalmente. Se sustentar só na agenda de valores é muito difícil. A esquerda tem um limite para crescer nessa área”, acrescentou Feres.

A prática do muro

Ninguém nega que Donald Trump é uma figura teatral. Entretanto, na prática, os especialistas dizem que não vai ser tão fácil para o magnata emplacar muitas de suas promessas de campanha.

“Faz parte da lógica eleitoral norte-americana falar coisas radicais para se diferenciar do seu oponente. Ele é uma figura muito teatral, mas ainda é imprevisível. Pode ser um cara completamente louco, e pode ser um sujeito totalmente adaptado. Há muito interesse americano em política externa, mudar o status quo disso é muito difícil. Mas, por exemplo, expulsar todos os imigrantes ilegais, como ele prometeu em campanha, ele não vai conseguir. Tem muito latino empregado ilegalmente. Se você expulsar, vai ter que substituir essas pessoas com um mínimo de legalidade, isso aumenta o custo de mão de obra e vai desordenar a economia”, disse João Feres.

Reginaldo fez coro à opinião de Feres, e acrescentou: “Uma coisa é ele [Trump] ganhar as eleições do jeito que ganhou. Quando for para o governo, vai ter um conjunto de forças que vai ter que conciliar, e os republicanos nunca foram inimigos dos interesses empresariais” comentou.

Os anos de 2015 e 2016, dentro de um contexto internacional, foram marcados, acima de tudo, pela guerra, pelo terrorismo, e pela crise dos refugiados. E ao que parece, o fim do conflito permanece distante. Ao longo de 2015, os países europeus reagiram de formas diversas à chegada dos imigrantes. A Hungria, por exemplo, fechou suas fronteiras, e seu primeiro ministro, Victor Orban, adotou medidas repressivas contra os refugiados. Já a Alemanha assumiu o compromisso de receber milhares deles. Somente em 2015, 1,5 milhão de refugiados pediu asilo no país. A crise migratória é uma das questões mais significativas e problemáticas a serem abordadas futuramente no jogo político europeu. O tema é inevitavelmente associado à xenofobia e ao racismo. Partidos como a Frente Nacional, na França, ganharam força dentro deste cenário de insegurança e conflito que surge com a inserção massiva de estrangeiros dentro das sociedades europeias, e não tão recente, a norte-americana.

Reginaldo cita o filme “Um dia sem mexicanos”, de 2004, sob a direção de Sérgio Arau. A trama fictícia conta uma história a respeito dos migrantes de raízes hispânicas na Califórnia, que representam um terço da população. Todos os 14 milhões de desaparecidos, que fizeram o estado entrar em colapso, são policiais, médicos, operários e babás que garantiam o bem-estar da população branca. Enquanto autoridades procuram explicações para o caso, os californianos começam a perceber a importância dos antes desvalorizados “chicanos”.

 “Ao mesmo tempo em que você tem uma personificação do migrante como o cara que rouba o emprego do local, por outro lado, ele é absolutamente necessário para certo serviço que outros não fazem. Uma estatística demonstra que existem mais de 10 milhões de imigrantes ilegais nos EUA. Esse pessoal, obviamente, não está lá sem fazer nada. Se tem um governante eleito com esse tipo de pauta, é porque ele tem um apoio popular muito grande para isso”, completou o professor, para quem o muro que divide os estados norte-americanos do México já existe.

“Metaforicamente o muro já existe, tem cerca e atiradores. Mas é claro que era uma expressão um pouco exacerbada do Trump. O México ficou em pavor, mas na verdade, alguns deles [mexicanos] viram como vantagem, porque a política externa dos EUA acabou com o México”, concluiu.

>> “Em 2018 será o Brasil no mesmo caminho”, diz Bolsonaro após vitória de Trump

* do projeto de estágio do JB

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