Prefeito eleito que não será empossado

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Gerson Luiz Mello Martins* / Jornal “O Estado”

3 de novembro de 2016

Nos últimos anos, ou melhor, nas últimas eleições e nestas, principalmente, um fenômeno que se apresenta e se ignora ao longo dos anos surgiu de forma contundente. Em pelo menos três capitais brasileiras o prefeito eleito não será empossado. Ou seja, o número de eleitores que “votaram” no nulo, branco ou se ausentou das urnas, é superior ao número dos que escolheram o candidato a prefeito que será empossado. Numa democracia consolidada, este fato geraria um amplo debate da sociedade organizada e dos membros do sistema político. É muito significativo que o candidato a prefeito que será empossado governe por uma minoria. Não há legitimidade. O novo prefeito deve refletir, considerar de forma significativa que ele “não” foi escolhido pela maioria da população.

No que tange à eleição local, em Campo Grande, o candidato eleito deve considerar que foi escolhido por pouco mais de 40% da população votante – quase 60% não optaram pelo candidato Marcos Trad! O crescente número de abstenções nas eleições deve ser objeto de pauta dos debates políticos de maneira urgente. Se contados, de acordo com dados do TSE, o número de votos dados a Marcos Trad no segundo turno e o restante dos votos, chegar-se-á à conclusão de que o candidato foi escolhido por 241.876 eleitores e, no entanto, somados os demais “votos”, entre a candidata Rose Modesto, abstenções, brancos e nulos, chega-se a 353.296 eleitores.

A escolha de Marcos Trad não foi efetivada pela maioria, como requer um processo de escolha democrática. Em outras palavras, o “candidato” escolhido pelo eleitor não tomará posse. Esta situação é mais grave no Rio de Janeiro, onde somente o número de abstenções supera o número de votos do vencedor. E a pergunta que aparece em seguida é: qual a legitimidade de governo do prefeito eleito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella?

O sistema eleitoral brasileiro está falido. As dezenas de coligações realizadas entre os partidos mascaram uma situação em que se deveria escolher o candidato pelo seu perfil político, suas convicções, filosofia que deveria estar associada ao partido em que está filiado. É temeroso verificar que a mídia em geral classifica o resultado das eleições pela escolha do partido. Isso é falso, pois as pessoas escolhem candidatos, não partidos. A filiação partidária é mentirosa. O político se filia a aquele ou este partido desde que encontre alguma facilidade, compensação ou oportunidade. Não se escolhe o partido de filiação porque o candidato considera o programa desse partido coerente com seu perfil, com sua linha de pensamento e de atuação.

Assim, no âmbito de Campo Grande, se Marcos Trad está filiado ao PSD, ao PT do B, ao PSDB, ao PV ou ao PSB, não influencia no resultado do pleito. Um político, o senador Álvaro Dias, que ao longo dos anos se firmou como legítimo representante da linha política do PSDB, hoje, por oportunismo, está filiado ao PV. Então, partido político nada significa no contexto do processo eleitoral brasileiro atual. É uma falácia a mídia publicar em letras gigantes o quadro partidário do resultado das últimas eleições. O que vale é o candidato, não importa em que partido esteja filiado.

No dia 1º de janeiro a população brasileira assistirá, resignadamente, a posse de vários prefeitos que não foram eleitos! O movimento, as mudanças da representatividade dos partidos políticos é uma grande mentira. O correto é afirmar que as famílias, oligarquias políticas se movimentaram, conquistaram poder, mantiveram poder. Desde o Brasil colonial são as oligarquias, as famílias políticas, quem definem o processo eleitoral, pelo menos no âmbito do Poder Executivo. No Poder Legislativo há, precariamente, uma ascensão de políticos novos, em que alguns conseguem montar uma oligarquia e outros desaparecem com o tempo.

*Jornalista e pesquisador do PPGCOM e Ciberjor UFMS

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Um comentário sobre “Prefeito eleito que não será empossado

  1. Creio, Prof. Gerson Martins, que um dos fatores responsáveis pela não eleição de fato do novo prefeito de Campo Grande, MS, é a ausência dos eleitores de esquerda e o grande número de abstenções. Na verdade, aqui na Cidade Morena, só se apresentaram candidatos da direita – Marquinhos Trade e Rose – e o povo sabiamente escolheu o menos ruim! Abraço e parabéns pelo artigo. Hermano de Melo de Melo.

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