Crônica: Solitude (Maria Adélia Menegazzo)

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Maria da Glória Sá Rosa (Professora Glorinha)maria-adc3a9lia

Maria Adélia Menegazzo*

Correio do Estado

02 de Agosto de 2016

Se a luta com as palavras é a luta mais vã, nada nos impede de fazê-lo. No entanto, a grande dificuldade, maior talvez que a vanidade, é escolher o que dizer, sobre o que falar. A decisão é imperativa e é claro que esse mundo caduco em que vivemos nos oferece notícias a cada minuto, e todas, sem exceção, são passíveis de comentários.

Poderia ficar em dúvida entre o que leio nos jornais, o que me chega via redes sociais e o que vivencio, mas confesso que tenho de escolher o mais confiável. Perdi, na semana que passou, uma grande amiga. Não vamos mais falar ao telefone, não vamos mais ao cinema, não trocaremos livros e dvds e não teremos mais reuniões de trabalho com sucos, cafés e salgadinhos.

Perdi, na semana que passou, uma grande amiga. Não vamos mais falar ao telefone, não vamos mais ao cinema, não trocaremos livros e DVDs e não teremos mais reuniões de trabalho com sucos, cafés e salgadinhos.

Também não teremos mais suas festas de aniversário, quando se reuniam em torno dela a família e os amigos. Aprendi muito com ela sobre arte, literatura e cultura. Conversávamos longamente sobre os livros que líamos, os filmes a que assistíamos, às exposições bienais e salões de arte.

glorinha 2Era enérgica na defesa de seus pontos de vista e nem sempre concordávamos, mas também sabíamos o que fazer para conciliar os contrários. Recebia suas crônicas para serem publicadas aqui, no Correio do Estado, sempre com uma mensagem pedindo minha opinião, que alterasse o que fosse necessário e, se eu demorasse mais de um dia para dar um retorno, o telefone tocaria por volta de 11 horas da manhã.

Quando chegava minha vez de cronicar, no mesmo dia recebia uma mensagem comentando o conteúdo do meu texto e terminava com o carinhoso: “Je t’embrasse comme d’habitude!”.

Acho difícil continuar falando sobre nossas relações de amizade, de profissão e de projetos. Todos temos boas lembranças da Glorinha e tenho certeza de que dela sempre viveremos.

Uma das minhas crônicas de que ela mais gostou e sobre a qual mais conversamos refletia sobre a solidão e a literatura. Vou repetir aqui uma parte e, assim, mostrar que uma amizade profunda vai além dos beijos e dos abraços, toca a alma como tatuagem e resta lá para sempre.

“Teórico da literatura muito conhecido no meio acadêmico, Michel Blanchot diz que aprenderíamos mais sobre a arte se intuíssemos o sentido da palavra solidão”. Embora se tenha abusado demais dela, dificilmente conseguimos definir o que seja. O senso comum afirma, inclusive, que é possível estar só, ainda que no meio de uma multidão. O que significa, então, estar só? Nada melhor para exemplificar do que a sugestão de Cecília Meireles: seja igual “ao camelo que mastiga sua longa solidão”. Ou o impagável “Estou só e socó”, de Manoel de Barros. No entanto, Blanchot também diz que pensar a solidão não deve nos levar a respostas patéticas. Patético, segundo o étimo grego pathétikós e o latino pathéticus, diz respeito à paixão, à comoção da alma. Mas a raiz da palavra é o substantivo pathós, que significa doença.

Assim, o patético, enquanto paixão, seria uma forma de extremo sentimento. Em que medida a paixão, que é a comoção da alma, está relacionada com a solidão? Ainda é Blanchot quem afirma: a obra é solitária, o que não significa incomunicável. Mas, sem dúvida, o leitor entra nessa solidão e partilha todos os seus sentimentos (inclusive os patéticos), assim como aquele que escreve está sujeito ao risco dessa solidão. Entre ser só e só ser, o artista tem em si todos os sonhos do mundo. O leitor, pateticamente insone, com todas as memórias da alma, partilha tanto dessa solidão quanto de seus sonhos.

Com minha alma muito comovida, hoje, estou um pouco mais só.

*Professora da UFMS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras (ASL).

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