Crônica do dia: Sim, passarão

charge eder

7 de abril de 2016

André Luiz Alvez*

Sozinho na manhã de domingo, contemplando a janela na qual uma lagartixa devorava um bicho de asas, me peguei imaginando se eu pudesse encontrar comigo quando tinha dezessete anos. Que bom seria “volver a los diecisiete”, como na música de Violeta Parra, um efebo novamente.

Sabendo o tanto que fui (e ainda sou) turrão, não daria conselhos, não falaria dos perigos das esquinas, que, de alguma forma, deles todos escapei, não alertaria sobre doenças, que naquele tempo o açúcar e o sal me causavam prazer, deixaria que se cumprisse o que se passou.

charge 2Só queria lhe contar que pela nossa vida passarão coisas belas, misturadas aos imbecis, formando um carrossel de pedras brutas que se precisa lapidar. A turba insana fará suas vítimas, pregará calúnias, espalhará inverdades, sem se preocupar que, num dia breve lá na frente, “os escafandristas virão explorar suas casas”.

Ah, eu queria tanto te contar coisas que sei que você não vai acreditar: o presidente dos EUA é negro e foi a Cuba – um lugar que muitos ultimamente têm te mandado ir morar –, pois o homem foi lá e fumou o cachimbo da paz e na outra semana dançou tango em Buenos Aires. Woody Allen prossegue genial e Michel Jackson morreu, ele e muitos outros que você gosta.

Sabe aquela frase de Sócrates: “Só sei que nada sei”? Pois a humanidade continua pensando que sabe tudo e, quando se dá de frente com o contraditório, esmurra o ar, numa cólera insana. Sua intolerância em alguns assuntos aumentou, ainda assim você será um cinquentão que nunca guardou mágoas nem permitiu que as lembranças fossem mais fortes que seus sonhos; continua vestindo calça jeans, camisa de número maior e, aos domingos, sandálias, óculos escuros e boné, porque, quando abriu a janela e nada acontecia lá fora, pisou descalço a grama molhada do orvalho e fez, não ficou esperando acontecer. E errou um bocado, confiou em quem não devia, desmereceu valiosos conselhos, tomou caminhos tortos.

Mas sossegue, você terá uma esposa companheira e dois filhos lindos, de cujos sorrisos lhe farão um sujeito feliz. Não sei por quanto tempo ainda estaremos por aqui, espero que mais trinta e oito anos, que sempre achei oitenta e oito um belo número final. Que pena que você não conseguiu decorar nenhum verso do Neruda, mas guardou aquela frase dolorida da Florbela Espanca: “Longe de ti são ermos os caminhos”. É meu amigo, todo amor é frágil e inocente.

Você vai se surpreender com algumas pessoas, para o bem e para o mal, mas elas passarão. Suas lágrimas salgadas, muitas vezes, serão doces, de riso, de alegria, porque a vida não é só infortúnio, ela reserva bons momentos. Ah meu amigo, você continua se alinhando com as minorias, batendo de frente com os senhores dos castelos e ainda não se deu conta que muitos ainda passarão por sua vida. Sim, eles passarão e se perderão no quarteirão da esquina feito nuvens passageiras, deixando no ar aquele cheiro estranho dos que seguem as manadas.

*Publicitário, ator, escritor (acido13@gmail.com).

**Crônica publicada hoje (7/4) no jornal “Correio do Estado”. Charge do Éder.

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