Dos “arapongas” aos “uiquiliques de araque”

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Luiz Fernando Mirault Pinto*

31 MAR 2016

Absurdo é o resultado da busca do sentido de algo incoerente com a sensatez: como a intenção de envolver, via escuta telefônica, as conversas da mais alta autoridade do País, sem que os responsáveis respondam pelos atos ilegais. Abuso é a iniquidade ou atrevimento de fazê-lo no gabinete da autoridade constituída, representante de um povo, ao mesmo tempo chefe da Nação, do Estado e das Forças Armadas, sem que se apresentem os motivos legais para tal.

Em qualquer lugar do mundo, “grampear” o gabinete da mais alta autoridade de um país, sem autorização de uma corte judiciária suprema, é crime. Ponto pacífico. A gravação de conversas sigilosas e particulares de mandatários de uma nação é traição. Divulgar assuntos de Estado que versam sobre comportamento, atitudes, estratégias e políticas é um crime gravíssimo de traição.

A divulgação de assuntos, restritos aos figurantes envolvidos no colóquio, mesmo com autorização da gravação e não da disseminação, deve ser vista como um golpe de Estado.

Portanto, mais grave do que qualquer ato presidencial que não envolva ilícito ou crime de responsabilidade é a gravação e divulgação em meio de comunicação privilegiado, fugindo da transparência e com objetivos velados de fomentar a desagregação política entre os brasileiros, colocando em risco o Estado de Direito e as Instituições Democráticas.

Faça-se isso na França ou nos States, a traição será julgada e punida exemplarmente. Na Indonésia, Síria, Arábia, virá acompanhada da pena máxima.

No Brasil, se aqueles que estudaram e se profissionalizaram no Direito estão alheios aos fatos e a suas consequências, incapazes de enxergar a ponta do nariz, “quiçá” os admiradores da vida alheia institucionalizada pela bestialidade da moda, os “realities shows”, em que são expostos a público todos os naipes da falta de caráter e interesses egoísticos, ou a exposição da vida de artistas que nada têm a acrescentar de útil à sociedade.

Mais grave ainda porque as autoridades estão sendo envolvidas pela mídia, perquiridas e cooptadas a darem opiniões sem embasamento ou conhecimento do teor das gravações, que foram obtidas sob sigilo e divulgadas inconsequentemente, ou propositadamente, e que servem de base para se estabelecerem medidas jurídicas por autoridades que se autopromovem declinando-se favorável à parcialidade, ao apoiar ou beneficiar determinado grupo político.

Os arapongas do título referem-se aos “escutadores oficiais da conversa alheia”, originários das ações de espionagem e contraespionagem das instituições de informação militares, que atualmente se estenderam aos órgãos policiais e a grupos privados a serviço de empresas em busca de informações privilegiadas de concorrentes: “conversa por telefone, só para marcar encontro e, mesmo assim, em local errado, para despistar”, como dizia Tancredo, antes do celular. Hoje, nada pode ser feito ou dito sem que meçamos nossas palavras, uma vez que a invasão de privacidade é vista pela sociedade não como desrespeito, mas como uma naturalidade promíscua. Arapongas são “voyeurs”, patologicamente condenáveis.

Por outro lado, a organização Wikileak, de Assange, aplaudida inicialmente por anarquistas e, posteriormente, pelos lúcidos, por trazer à tona e publicar, no seu sítio, posts de fontes (anônimas), documentos, fotos e informações confidenciais, vazadas de governos ou empresas, sobre assuntos sensíveis, com o objetivo de combater os segredos de Estado, regulando os poderes das nações, uma vez que acusa governos de usarem a internet com objetivos de manutenção do poder político e econômico das nações. Trata-se de uma divulgação de assuntos de interesse mundial. Portanto, significa uma ação louvável, que nada tem de traição, embora seu fundador permaneça asilado para não ser preso.

Aqui, os que têm o privilégio do uso dos aplicativos de comunicação e acesso a redes sociais se encarregam de replicar informações viralizadas (conteúdos que acabam ganhando repercussão inesperada na web) ou de compartilhar assuntos introduzidos por grupos de interesses econômicos e políticos escusos, pelos quais inocentemente se identificam, desconhecendo a força da consciência coletiva que os enquadram coercitivamente, induzindo-os a externarem e a exporem o que têm de mais sagrado: a individualidade, a privacidade, a cidadania e o respeito a outrem. A esses, os chamo de “uiquiliques de araque”!

 *Físico e administrador

**Artigo publicado hoje (31/03) no jornal Correio do Estado

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