A MOBILIDADE DOS IMIGRANTES (EM: IMIGRANTES: A VIDA PRIVADA DOS POBRES DO CAMPO)

 

migrantes

Fachada da Hospedaria dos Imigrantes em São Paulo, inaugurada em 1897, por onde passaram todos imigrantes subsidiados com destino às fazendas paulistas (1910)

Carlos Frederico Corrêa da Costa*

Tomada a decisão de emigrar, tinha início uma história que se pode dizer de movimento infindo. A mobilidade, já esboçada no século XVIII por aqueles que se dirigiam para as cidades, ou outros países europeus, em busca de empregos, passa a ser normal.

Frequentemente esse deslocar-se nem sequer se configurava na prática, mas permanecia como uma atitude a ser tomada. Ao sair, os camponeses não imaginavam se fixar ou recriar o mundo ao qual estavam habituados em terras estranhas, estabelecendo assim uma contradição que os acompanhará para sempre nos países de adoção.

Saíam pensando em conseguir algum dinheiro e voltar ao país de origem. Quando a vida no Brasil não lhes possibilitou conseguir o pedaço de terra almejado, passaram a se movimentar dentro do território brasileiro em busca de melhores condições de vida, como aconteceu no Sul do país.

Em São Paulo, transferiam-se de fazenda em fazenda na busca de salários melhores, que lhes permitissem comprar suas terras, ou mesmo de patrões melhores, e muitas vezes, à procura de atividades mais compatíveis com suas experiências anteriores de vida, e para isso iam para outros países, Argentina ou Uruguai, a fim de se dedicar à cultura do trigo, por exemplo.

A mobilidade dos ex-escravos e caboclos pouco incomodava os donos de terra, mas o mesmo não ocorria com os imigrantes. No Sul, porque o governo central os queria estabilizados nas colônias, o que ajudaria nos atritos com os vizinhos platinos. Nas fazendas de café, porque não interessava aos cafeicultores pagar os bilhetes de traslado e não contar com trabalhadores em suas plantações. No caso do imigrante, o próprio direito de se locomover, em muitos casos, precisou ser conquistado.

O desejo de aglutinação dos imigrantes do mesmo grupo dentro do Brasil também era causa de mobilidade, o que não era visto com bons olhos pelas autoridades, temerosas dos enquistamentos.

No caso dos alemães, no Sul, isso foi bastante comum, e pouco adiantava a venda de lotes intercalados com lotes para camponeses de outras nacionalidades, italianos ou poloneses, por exemplo. Assim que podiam, trocavam ou vendiam seus lotes, a fim de retomar a prática de vizinhança, não de alemães simplesmente, mas de pessoas vindas da mesma aldeia.

Quando essa mobilidade não era possível, como no caso das fazendas paulistas, que mantinham os imigrantes como verdadeiros prisioneiros, ela se deu pela fuga.

São inúmeros os relatos de homens que saíam à noite das fazendas e que tinham suas mulheres e filhos sequestrados pelos patrões por causa das dívidas contraídas – antecipações salariais em dinheiro ou gêneros alimentícios. Para libertá-los, muitas vezes, era necessária a intervenção dos cônsules.

Com o tempo, até o ato de fugir foi aperfeiçoado. Assim, os japoneses que foram para as fazendas de café por volta de 1910, não agüentando o tipo de trabalho ou a exploração a que eram submetidos, desenvolveram quase um ritual para as fugas.

Como não se podia pretender usar veículos, tinha-se que estar decidido a fugir a pé, levando somente as coisas necessárias, distribuindo-as entre os familiares durante a caminhada.

Tinham que andar sem despertar atenção de 20 a 30 quilômetros. Como fazia calor excessivo durante o dia, caminhavam à noite, e para tanto precisavam prevenir-se de alimentos, pois seria muito arriscado procurar os armazéns.

Utilizavam atalhos no mato, por onde passassem poucos caminhantes, mas mesmo assim não conseguiam livrar-se da impressão de estarem sendo perseguidos…

No próximo artigo voltaremos a falar de experiências de emigrantes, descrevendo a viagem da Europa para o Brasil.

Referência Bibliográfica

COSTA, Carlos Frederico Corrêa da (pela transcrição e adaptação) de: ALVIM, Zuleika. Imigrantes: a vida dos pobres do campo In: NOVAIS, Fernando A. (org.), História da vida privada no Brasil 3. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p. 234-236.

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*Carlos Frederico Corrêa da Costa é doutor em História Social pela USP-SP, historiador de empresas, famílias e biografias.   Professor aposentado da Graduação, Pós-Graduação e Pesquisador do Departamento de História, campus de Aquidauana/UFMS; E-mail: cfccosta@terra.com.br

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