A ATRAÇÃO DE IMIGRANTES PARA O BRASIL (IMIGRANTES: A VIDA PRIVADA DOS POBRES DO CAMPO)

imigrantes

A viagem de navio tornou-se um marco inesquecível mesmo para aqueles que dela não participaram diretamente, como os filhos de imigrantes, que em suas entrevistas sempre relatam a travessia feita pelos pais como algo dantesco. O pintor Lasar Segall, que chegou ao Brasil em 1923, deixou em sua obra registros dessa passagem, como esta gravura de 1928, intitulada Terceira classe.

Carlos Frederico Corrêa da Costa*

08/03/2016

A política imigratória brasileira oscilará, desde a época joanina até os anos 80 do século XIX, entre o desejo de alguns liberais do Império de trazer pequenos proprietários, visando povoar as regiões sulinas do país e com isso sustar a cobiça dos vizinhos platinos pela região, e o desejo dos grandes fazendeiros de manter uma política agrária calcada na grande propriedade e na agricultura de exportação.

Para que este último desejo se realizasse, a necessidade de farta mão-de-obra era imperativa, fosse ela alimentada pela entrada maciça de escravos, como ocorreu até meados do século passado, ou por imigrantes pobres cujo destino seria substituir os primeiros nas plantações e não tornar-se pequenos proprietários.

O embate entre as duas faces da política imigratória passou por requintes em que o branqueamento da raça, e a necessidade de uma nação mais civilizada e de um país onde o binômio senhor/escravo fosse amenizado, com a introdução de pequenos proprietários, não estiveram ausentes e esforços nesse sentido não faltaram, mas seu sucesso foi limitado.

Em 1867, as terras públicas disponíveis para a colonização em apenas sete províncias do Império mediam nada menos do que 503965 hectares, enquanto em 1861 existiam 33 colônias habitadas por 33970 estrangeiros; 14 anos depois o número das colônias crescera para 89, das quais 66 no Sul (de São Paulo ao rio Grande do Sul), mas, comprovando as dificuldades encontradas por essa política, eram pouco mais da metade das que foram criadas.

Não bastava vontade política para garantir o bom andamento dos núcleos coloniais, o governo não tinha verbas suficientes para arcar com as despesas de traslado e assentamento desse tipo de imigrante, ainda que o reembolso fosse feito no prazo de dez anos pelo próprio imigrante.

Funcionários mal treinados no gerenciamento dos núcleos, demora na demarcação dos lotes e abertura de estradas, ausência de hospedarias para abrigar as pessoas imediatamente após a sua chegada obrigaram muitas famílias embarcadas com destino ao Sul a esperar seis meses para se estabelecer ou até mesmo um ano, em casos-limites, nos quais o governo era obrigado a mantê-las, aumentando ainda mais suas despesas.

Vários relatos chamam a atenção para o número de europeus maltrapilhos que desfilavam pelas cidades sulinas, pedindo esmolas para sobreviver.

O panorama até aqui descrito, significa a opinião do governo e dos liberais; o outro lado do binômio imigratório, o dos fazendeiros que desejavam perpetuar a grande propriedade e o comércio de exportação, não estava nem um pouco interessado na introdução de pequenos proprietários, mas na de imigrantes em larga escala que pudessem minorar a escassez de escravos iniciada a partir de 1850, com a proibição do tráfico negreiro.

Mais fortes economicamente, mais organizados do ponto de vista infra-estrutual, não foi difícil para os grandes proprietários impor suas regras, e o exemplo mais bem acabado foi o de São Paulo, que a partir de 1870 introduziu imigrantes europeus com passagens pagas pelos fazendeiros e obrigados a cumprir um contrato de cinco anos, findos os quais as despesas antecipadas deveriam ser restituídas.

No começo de 1881, politicamente bem situados na província de São Paulo, os fazendeiros conseguiram que o governo arcasse com as despesas de metade das passagens dos imigrantes e por fim, pela lei de 28 de março de 1884, o governo provincial assumiu o traslado integral dos colonos e pequenos proprietários que quiseram vir para o Brasil.

Referência Bibliográfica

COSTA, Carlos Frederico Corrêa da (pela transcrição e adaptação) de: ALVIM, Zuleika. Imigrantes: a vida dos pobres do campo  In: NOVAIS, Fernando A. (org.), História da vida privada no Brasil 3.  São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p. 231-234.

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*Carlos Frederico Corrêa da Costa é doutor em História Social pela USP-SP, historiador de empresas, famílias e biografias.   Professor aposentado da Graduação, Pós-Graduação e Pesquisador do Departamento de História, campus de Aquidauana/UFMS – E-mail: cfccosta@terra.com.br

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