O significado político da derrota de Evo Morales no plebiscito da Bolívia

evo morales

Hermano Melo*

01/03/2016

Conforme amplamente divulgado pela imprensa latino-americana nos últimos dias, o Tribunal Supremo Eleitoral da Bolívia (TSE) confirmou a vitória do “Não” por 51,31% x 48,69% do “Sim” no referendo constitucional realizado domingo atrasado (21/02) naquele país, o que impede o presidente Evo Morales de se candidatar a um quarto mandato consecutivo (2020-2025). Mais de seis dos dez milhões de bolivianos foram às urnas para decidir sobre a reforma constitucional.

Embora os resultados do referendo sejam altamente significativos – apesar de desfavoráveis ao primeiro presidente indígena eleito na história daquele país sul-americano – é importante salientar que a diferença entre os que votaram pelo “Non” e os que escolheram o “Si” foi deveras estreita, o que revela de qualquer forma a força do partido político que dá sustentação a Evo Morales e ao seu vice Álvaro García Linera, a despeito dos longos dez anos de governo (2006-2016).

Logo após tomar conhecimento do resultado do plebiscito que foi a primeira derrota eleitoral direta do presidente boliviano desde a sua chegada ao poder, ele disse durante coletiva de imprensa no Palácio Quemado em La Paz: “Respeitamos os resultados, faz parte da democracia. Perdemos uma batalha, mas não perdemos a guerra. Não estamos derrotados. A luta é mais difícil, mas ela não termina aqui”. E atribuiu sua derrota a uma “guerra suja” da oposição e “conspiração externa”.

Morales disse ainda que ele está longe de ter sido derrotado e que o referendo mostrou ter um “voto resistente” para cerca de 50% do eleitorado e que isso o incentiva a permanecer na política e à frente do movimento sindical.

É claro que os resultados eleitorais na Bolívia – altamente desfavoráveis ao presidente Evo Morales (a despeito de sua fala e do aparente empate técnico no placar do referendo popular), sofreram também – e ao que tudo indica – importante influência de seus vizinhos no continente sul-americano (inclusive do Brasil), tanto da Venezuela ao norte quanto da Argentina ao sul, todos eles ameaçados por forte guinada à direita em seus respectivos espectros políticos!

Por outro lado, deve-se salientar que embora o modelo implantado por Evo Morales na Bolívia nos últimos dez anos seja semelhante ao do Bem-Estar Social inaugurado por Lula e Dilma aqui no Brasil, a partir de 2003, e posteriormente adotado pelos demais países da América Latina, tenha sido extremamente importante na diminuição da distância entre ricos e pobres no Continente – ele trouxe em seu bojo algumas distorções que infelizmente não foram devidamente equacionadas e corrigidas ao longo do tempo. (Vide, por exemplo, o que aconteceu como o programa do Bem-Estar Social na Dinamarca!).

O resultado disso é a crise política que se instalou em todo Continente sul-americano e que certamente teve influência decisiva nos resultados do referendo popular da Bolívia no último domingo. A impressão que se tem é que o modelo político/econômico utilizado nos dias de hoje pela maioria dos países sul-americanos enferrujou e se tornou obsoleto, necessitando com urgência de nova formulação que atenda aos reais anseios de seus povos

*Jornalista e Escritor.

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